segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Meias

Deitou-se na cama derrubando alguns papéis no chão. "Preciso comprar meias novas", sussurrou observando os pés cautelosamente. Magros, sujos e desordenados. Feito amor surrado. Nem feio ou bonito. "Amanhã eu vou", gritou o silêncio de sua casa. Lá ao longe dava pra ouvir o barulho de pingos. Sabe-se lá de onde, talvez do vizinho. Cortaram a energia. Não sabia há quanto tempo não saia de casa. Abriu o armário da dispensa, mas pela terceira vez no dia tateou migalhas e xarope. Mal via-se um rosto naquele espelho. A barba escura e espessa tomava-lhe o sorriso. Sorriso? Sentia falta dos cigarros. "Amanhã, tudo bem?", foi tentar ser gentil consigo mesmo.

Foi obrigado a se levantar. Não sabia muito bem por onde a luz entrava. Tentou tampar os olhos com o travesseiro. Talvez (ou muito provável) fosse um sonho. Toc toc. Abriu os olhos.
Contou até o terceiro toque.
Acompanhou a sombra inquieta no vão da porta.
Respira. Inspira.
Quarto toque.
Abriu no início do quinto.
Ninguém.

Sem tirar os olhos da vidraça, reclamou alguma coisa sobre meias. "Desculpe, você quer comprar meias?" Fez um sim que muito podia ser não. "Um par?" Ele estava começando a ficar puto. "Porque eu compraria uma meia só?", respondeu sem tirar os olhos da banca de jornal do lado de fora da loja. Cigarros.
"São 5". Ele olhou pela primera vez para a moça do balcão. Cabelos vermelhos. Pareciam naturais. Combinavam com as olheiras, nem tão fracas ou expressivas. Tinha um sorriso bonito.
- Ed?
Tentou se lembrar de quem era Ed. Não o chamavam assim desde a formatura. Mas também faz muito tempo que não o chamam de nada.
Ficou olhando aquela guriazinha nos olhos. Não se lembrava nem fodendo. Tentou forçar um sorriso. Sorriso?
- Não lembra de mim, Ed? - ela ficava repetindo aquele apelido ridículo - lá do parque. A gente tomou umas cervejas.
- Acho que foram muitas cervejas - tentou forçar uma aparência mais saudável, ele tava feio pra caralho.
- É - ela sorriu e jogou um pedaço de papel no balcão - eu to indo, vou almoçar na casa da minha tia, me liga quando tiver afim.
Deu um beijo no rosto e saiu. Tinha cheiro de lavanda. Ele ficou lá, parado, puto, com um par de meias na mão. Um neguinho passou na banca e comprou o último maço de cigarros.

Andava calma, um tanto cética. E se deitou na cama. Assim mesmo, sem a menor cerimônia. Acendeu um cigarro.
- Porque você se lembrou de mim?
- Os tênis.
- Ah...
Ele coçou o joelho pelo rasgo da calça jeans surrada. Era a mesma há 3 anos. Os tênis também. Só havia trocado as meias. Ela se mexia de um jeito bonito. Nem rápido ou devagar demais. Ele não havia entendido como ela o convenceu a abrir a porta tão cedo.

Ficaram os dois deitados. Se pudessem, abririam um céu no teto daquele quarto e expulsariam tudo o que não era paz. Era fácil flutuar do lado daquela guria, mas ele sequer se lembrava dela. Ou não queria se lembrar. Meias brancas são mais fáceis de se sujar quando se anda descalço o tempo todo.
Ela o chamava o tempo inteiro com os olhos. Os lábios sempre entreabertos. Tinha um andar metido, exposto, liberto. Ele a achava cada vez mais bonita. Mais próxima.
- E aquela menina, Ed?
Ninguém disse nada. Ele a olhou de relance, mas não falaram mais nisso.

Tomou banho no terceiro dia. Penteou os cabelos e deu um jeito na barba. Juntou o rosto ao espelho tentando ver alguma coisa sabe-se lá o que. Talvez um rastro de sorriso, de vontade. Não tinha nada não, nem cheiro. Estava querendo mudar a aparência, o coração, tirar de cima umas vontades antigas, alguns sonhos passados. Tinha perdido aquela vontade adolescente de sofrer toda semana por um amor.

Sentiu saudades daquela menina. Saudades do que é fácil, indolor. Perder um amor é morrer na praia, com flores na mão, de baixo de sol quente. Encontra-se um refúgio longe do que é difícil e viver é triste quando não se têm motivos para levantar da cama. Mas uma menina daquelas te faz correr quanto for preciso. Te joga um balde de água no rosto, rapaz. Te faz tomar um choque.

Pingavam-lhe aos olhos pequenas gotas da chuva que desciam pelas beiradas dos prédios. O coração cheio de calor e paz o esquentava. Nada restara senão a vontade de viver. Esperava olhar nos olhos daquela menina para quem havia dito que "não lembro, não". Queria contar que lembrava sim de onde a havia visto. Que sabia sim, queria tanto que sabia. E não ia esquecer. Esperaria até as 10. Depois das 10 iria embora.

Mas não a viu. Ficou lá, nervoso, com o cigarro quebrado pela chuva fina, daquelas que faz cócegas no rosto. Levantou da escadaria da igreja às 11. Foi embora as 11:30. Perdeu-se no caminho de casa, perdeu-se da guria de cabelos vermelhos, perdeu-se a tristeza que tomava-lhe o rosto. No reflexo da vitrine, não eram lágrimas não. Não chegou a ir para casa, nem para qualquer lugar conhecido. Seguiu para uma loja de meias, em frente à banca de jornais. Sentou no café da esquina e voltou a escrever. E escrevia tão concentrado, abençoado, viu-se até um sorriso. Viu-se uma vida ali. Olhou para os pés, as meias molhadas. Decidiu que as trocaria.

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