quarta-feira, 28 de março de 2012

Olá

Dentre todos os meus quebra-cabeças, essa era uma palavra fácil. Na ponta da língua, parecia leve. Eu queria sentar do seu lado e dizer. Talvez até te oferecesse um café com essência de canela, uma dessas coisas que dizem posso-me-sentar? de uma maneira descontraída, isto é, se você não reparasse que as minhas mãos tremiam demais para um simples cumprimento de dois amigos que não se vêem há algum tempo. Hoje fiquei o dia inteiro enfiado no sofá da sala com uma barra de chocolate nas mãos tentando ter algum vislumbre do seu sorriso. Tentando lembrar de algum ponto fraco seu, onde, quase imperceptível, eu pudesse descansar o meu esforço de ter todas as suas partes que me domam com um toque sensível e maduro. Eu tento me levantar com o mínimo de esforço, para que, se tudo der errado, eu não me arrependa tanto quanto se saísse correndo desse apartamento e batesse à sua porta com um cartão e flores amarelas. Mesmo porque as flores amarelas estão com um sorriso triste de quem morreu semanas atrás, onde as coloquei na cozinha, num copo com água, para me lembrar que, dia após dia, eu não me atrevi a colocar os pés para fora de casa.

Penso que deveria tirar umas férias de casa. Fazer passeios à padarias distantes e cinemas retrôs do centro da cidade. Talvez eu pudesse me perder na rua da sua casa, onde, sem querer, me atraso para bater à sua porta pedindo um copo de água, inventando uma história que te faça aproximar de mim. É que desde aquela noite eu não consigo tirar os olhos de você. Não sei bem se foi um desses encontros em que todos os detalhes tomam proporções gigantescas e até a curvinha da sua clavícula parece a mais linda do mundo. Eu dei razões para o meu coração amar e, sem pensar duas vezes, ele correu até você e te amarrou com cordas de piano. Mas cordas de piano machucam a pele, os braços, as pernas - qualquer parte do meu corpo que tenha sobrado - e me devolvem as cicatrizes de amores passados. Acendo mais dois cigarros e sigo com o meu dilema. Descer as escadas que dão para a rua é um caminho arriscado se a cada distração os meus pés me levam até você. Adio minhas férias e me jogo na cama. Percebo que você continua sorrindo, com ou sem cordas de piano imaginárias. Você continua linda, com ou sem alguém que te ama do lado.

É uma faca de dois gumes amar você. Posso me largar no seu coração tumultuado e pedir a Deus para que você me entenda. E posso viver com a angústia de nunca saber o que você me diria se eu telefonasse às três da manhã só para ouvir a sua voz. Te pedir para ficar, para morar na minha cama, no meu peito, na minha voz. Ou te pedir para deixar um pedacinho seu em cada metro quadrado da minha casa, para que ilumine o meu quarto nos domingos de manhã. O único fato consumado é que eu não quero viver sem ter a sua essência nos meus cafés com leite vaporizado e seu gosto nos meus jornais de fim de tarde. Não quero passar pelo processo que é aceitar uma das coisas que mais corta o coração: a despedida de um amor que nunca existiu. Eu gosto de me fantasiar de realidade quando você passa. Eu gosto de correr pela rua da sua casa. Mas o que eu mais queria, o que eu mais desejava, era coragem para gritar o amor que eu sentia por alguém que nem sabe se me ama.

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