Poliana não bebia. Não usava drogas, não fodia. Poliana morava com os pais, às vezes com uma prima. Poliana não gostava de gente, espumantes, taxistas, feira aos domingos, motociclistas. Eu não a conhecia, mas sentia um gigante desprezo por Poliana. Ela cheirava a todas as coisas que eu odeio. Ela representava todos os meus medos mais controversos, cirrose, abortos, overdose. Sociopatas, vômitos, taxas, almoços, retrovisores. Poliana me infestava de desconfortos, aumentava minha desconfiança, me colocava ameaçado. Eu já não era ninguém quando Poliana existia ao meu lado.
Eu não gostava de Poliana e Poliana não me amava. Frequentava a Igreja aos domingos e orava toda Ação de Graças. Eu cuspia o chiclete na rua e deixava as meias sujas para fora do cesto de lixo. Poliana me encaminhava aos melhores centros de reabilitação, mas eu nunca estive sóbrio perto de Poliana. Ela me sugava toda a seriedade, roubava de mim toda a castidade. Eu nunca reclamava. Poliana me acha insensato, porco, consumista, estabanado. Eu queria matar Poliana da mesma forma que ela me matava todos os dias. Poliana me impedia de toda minha pureza, toda a minha coesão. Poliana fez de mim um corrupto, encheu meus olhos de sujeira e podridão.
Acabei me casando com Poliana. Poliana agora dá uns tapas em um baseado e fode como ninguém. Trocou a saia longa por cinta liga e o terço só reza às quintas. Poliana enrubesce ao gozar, mas ainda pede perdão por toda a vossa cocaína. Pai, não nos deixeis cair em tentação. Poliana adora charutos, cervejas, camas, apostas, dinheiro. Poliana sou eu, mas eu também já não sei quem sou. Quem agora ora por Poliana? Ela é o meu medo mais controverso. Poliana me infesta de baixarias, apreende meu estrago, ameaça minha calma. Eu já não sei quem é Poliana quando eu existo ao seu lado.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Ela e as outras
Eu sei porque
Eu gosto tanto
Daquele menino
Que gosta daquela
E daquela outra
Eu sei porque
Ele as faz
Com as suas mãos
Eu sei porque
Eu gosto tanto
De gostar
Daquela
E daquela outra
Eu sei porque
Ele as tem
Com sua língua
Eu, porque sei
E digo que gosto
E desmancho
Com aquela
E aquela outra
Eu sei porque
Eu já não sei
O que nós somos
Sei porque eu
Não sou
O que você sonhou
Eu gosto tanto
Daquele menino
Que gosta daquela
E daquela outra
Eu sei porque
Ele as faz
Com as suas mãos
Eu sei porque
Eu gosto tanto
De gostar
Daquela
E daquela outra
Eu sei porque
Ele as tem
Com sua língua
Eu, porque sei
E digo que gosto
E desmancho
Com aquela
E aquela outra
Eu sei porque
Eu já não sei
O que nós somos
Sei porque eu
Não sou
O que você sonhou
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Anna
Eu conheci Anna em 1997 e ainda não sei por que tive que deixá-la. Naquele ano meu irmão mais novo acabara de completar oito anos e eu terminava de assistir ao documentário "A Invenção da Psicanálise" e me apaixonava por Pink Floyd. Anna era dois anos mais velha do que eu e usava moletons listrados, muitas vezes coloridos, dispersos entre verdes e pretos, amarelos e laranjas. O cabelo desgrenhado, muito mal escondido atrás de um chapéu preto, marcado pela poeira de seu quarto bagunçado, infestado de mesquinharias, vídeo cassetes, óculos escuros, pornografias. Eu gostava de Anna pela sua boca perfeita, os olhos muito bem posicionados, secretos, decorados pelo seu nariz alinhado, arrebitado, concreto. Anna não era muito bem vestida, digo, arrumada, padronizada, mas chamava atenção pela tinta de baixo das unhas, as calças rasgadas, seus sapatos manchados. Quando se sentia chique, usava um blazer por cima de uma camiseta dos Doors. Eu a chamava de Mia Wallace e ela me perguntava se eu estava carregando alguma droga ilícita dentro do meu paletó. Ela me chamava de Marlon Brando e eu ficava puto de nunca poder ser o personagem. Ela me incentivava a escrever, minhas obras escassas, meus pensamentos fúnebres, toda aquela porcaria sobre sindicatos, papéis amassados, jornalistas, revolução. Anna adorava. Eu não.
Eu conheci Anna em um baile de formandos, lá pelos meus dezoito anos, cuecas sujas no cesto, má caligrafia, muitos alucinógenos. Naquela época nada era tão bonito quanto o sexo, cama esparramada, Anna na minha cama. Ela me contava de sua vida de forma cálida, tocando as pontas dos dedos, suando em minhas mãos, apalpando meu íntimo, me forçando, me chutando, me sangrando por todas as partes de meu corpo, aquelas pequenas emoções, tão frágeis. Eu não me desvencilhava, não fugia, só a beijava e jurava que seria eterno aquele nosso amor, nossa liberdade, nossos corpos magros direcionados para um grande romance, um filme de Hollywood, todas aquelas câmeras nos filmando. Soube alguns anos mais tarde que não era nada, não dava nem um best-seller, não havia set de filmagens, nosso caso não valia nem alguns trocados. Nos envolvemos com decepções amorosas, o tipo de prostituta que não devemos mencionar. Anna nunca disse se me amou. Nunca perguntei a Anna se ela me amava. Acho que tudo era pequeno demais para nossas almas, pequeno demais para todos aquelas sonhos, a minha infância ainda se espelhava nos meus olhos, o lápis preto em volta de suas pálpebras me mostrava uma vontade sanguinária de conhecer todo o resto do mundo e seu álcool, sua podridão, sexo, diferentes casas, diferentes homens, eu não era suficiente para Anna. Anna não era suficiente para mim.
Eu conheci Anna há 6 anos, antes de toda aquela porcaria, 11 de setembro, poluição, casas com alarme. Eu quase não bebia, mas fumava demais. Anna gostava de dançar com desconhecidos em bares à beira de estradas mal faladas, ela se equilibrava entre garrafas e mãos bobas, sorrisos estrábicos e olhares débeis, todo aquele suor bêbado, mesas de sinuca esparramadas pelo cômodo. Eu cuidava da madrugada de Anna e a mostrava o caminho de volta para sua cama. Eu nunca a amei, mas me doei inteiro para a sua felicidade, seu maldito conforto. E agora estou sem nada. Não corto o cabelo há meses, larguei a faculdade no último período, comecei a escrever três livros no último ano. Tudo que eu vejo é Anna em meus sonhos, meus olhos, minha cama amarrotada, a barba da semana passada, o café amargo. Trouxe algumas garotas para casa, mas todas elas me sufocaram, me queimaram, acenderam em mim um ódio profundo, um remorso. Anna, não sei por que você teve que ir embora.
Eu me despedi de Anna em 2001 e ainda não sei por que tive que deixá-la. Naquele ano meu irmão mais novo ganhava seu primeiro Game Boy e eu já havia desistido de ser alguém na vida e ia ao cinema três vezes por semana. Anna havia pintado o cabelo de vermelho e agora terminava o curso de Francês e largava lentamente seu vício por cigarros de palha. Naquele ano, Anna começou a pintar quadros e arrumou um namorado. Não era eu. Anna gostava de mim pela minha cicatriz acima da sobrancelha, o cabelo mal cuidado, os óculos de grau um pouco tortos, minha cara de tarado. Eu não gostava de calças largas e me sentia mal com camisetas amarrotadas. Ela dizia que eu chamava atenção pelo modo como eu falava, gesticulava, sempre jogava o lixo na rua, não tinha escrúpulos, era um mal educado. Anna me chamava de querido e eu fritava ovos com bacon enquanto ela dançava pela cozinha, me dizia que eu era seu melhor amante, seu confidente, seu melhor sexo, perfume, nunca fomos nada sério. Eu a incentivei a partir, atuar em outras peças que não as minhas, ser melhor atriz do que na minha cama, ela me chamou de amor, deu um beijo, me abraçou e então, partiu.
Eu conheci Anna em um baile de formandos, lá pelos meus dezoito anos, cuecas sujas no cesto, má caligrafia, muitos alucinógenos. Naquela época nada era tão bonito quanto o sexo, cama esparramada, Anna na minha cama. Ela me contava de sua vida de forma cálida, tocando as pontas dos dedos, suando em minhas mãos, apalpando meu íntimo, me forçando, me chutando, me sangrando por todas as partes de meu corpo, aquelas pequenas emoções, tão frágeis. Eu não me desvencilhava, não fugia, só a beijava e jurava que seria eterno aquele nosso amor, nossa liberdade, nossos corpos magros direcionados para um grande romance, um filme de Hollywood, todas aquelas câmeras nos filmando. Soube alguns anos mais tarde que não era nada, não dava nem um best-seller, não havia set de filmagens, nosso caso não valia nem alguns trocados. Nos envolvemos com decepções amorosas, o tipo de prostituta que não devemos mencionar. Anna nunca disse se me amou. Nunca perguntei a Anna se ela me amava. Acho que tudo era pequeno demais para nossas almas, pequeno demais para todos aquelas sonhos, a minha infância ainda se espelhava nos meus olhos, o lápis preto em volta de suas pálpebras me mostrava uma vontade sanguinária de conhecer todo o resto do mundo e seu álcool, sua podridão, sexo, diferentes casas, diferentes homens, eu não era suficiente para Anna. Anna não era suficiente para mim.
Eu conheci Anna há 6 anos, antes de toda aquela porcaria, 11 de setembro, poluição, casas com alarme. Eu quase não bebia, mas fumava demais. Anna gostava de dançar com desconhecidos em bares à beira de estradas mal faladas, ela se equilibrava entre garrafas e mãos bobas, sorrisos estrábicos e olhares débeis, todo aquele suor bêbado, mesas de sinuca esparramadas pelo cômodo. Eu cuidava da madrugada de Anna e a mostrava o caminho de volta para sua cama. Eu nunca a amei, mas me doei inteiro para a sua felicidade, seu maldito conforto. E agora estou sem nada. Não corto o cabelo há meses, larguei a faculdade no último período, comecei a escrever três livros no último ano. Tudo que eu vejo é Anna em meus sonhos, meus olhos, minha cama amarrotada, a barba da semana passada, o café amargo. Trouxe algumas garotas para casa, mas todas elas me sufocaram, me queimaram, acenderam em mim um ódio profundo, um remorso. Anna, não sei por que você teve que ir embora.
Eu me despedi de Anna em 2001 e ainda não sei por que tive que deixá-la. Naquele ano meu irmão mais novo ganhava seu primeiro Game Boy e eu já havia desistido de ser alguém na vida e ia ao cinema três vezes por semana. Anna havia pintado o cabelo de vermelho e agora terminava o curso de Francês e largava lentamente seu vício por cigarros de palha. Naquele ano, Anna começou a pintar quadros e arrumou um namorado. Não era eu. Anna gostava de mim pela minha cicatriz acima da sobrancelha, o cabelo mal cuidado, os óculos de grau um pouco tortos, minha cara de tarado. Eu não gostava de calças largas e me sentia mal com camisetas amarrotadas. Ela dizia que eu chamava atenção pelo modo como eu falava, gesticulava, sempre jogava o lixo na rua, não tinha escrúpulos, era um mal educado. Anna me chamava de querido e eu fritava ovos com bacon enquanto ela dançava pela cozinha, me dizia que eu era seu melhor amante, seu confidente, seu melhor sexo, perfume, nunca fomos nada sério. Eu a incentivei a partir, atuar em outras peças que não as minhas, ser melhor atriz do que na minha cama, ela me chamou de amor, deu um beijo, me abraçou e então, partiu.
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Nossa história não dá nem um best seller, amor
O telefone toca e são quinze para quatro de uma manhã de sábado. Não tem ninguém em casa, ninguém nos portões. Ninguém ama às quatro. Todos estão bebendo ou transando. O resto chora em suas camas. Eu estava me procurando por aí e me encontrei em seus braços e sem querer me perdi no seu descaso. Acabei alimentando meu fracasso com toda a esperança de suas tentativas fracassadas. Você me pede pra eu te encontrar na porta da sua casa. Estou ocupado e bêbado, bobo, estirado nesse sofá, mas me levanto e vou me crucificar junto à você. O meio do caminho é sempre mais sombrio que o começo. Sinto o cadarço do tênis incomodar. Sinto as mãos frias tentando esquentar. Percebo que já não lembro o caminho para a sua casa. Ou já não quero lembrar.
Estamos tímidos, você me pede para sentar. Então eu junto as mãos e as enfio entre as pernas. O frio nos dilacera, mas não nos importamos. Estamos acostumados à dor. Estamos anestesiados. Não sabemos nem ao menos qual o cheiro do ralo, não sentimos os cortes do coração. Somos insensíveis, meu bem, já não nos respeitamos. Não somos mais quem éramos há alguns anos. Me quer dia sim e dia não. Te amo hora sim, minuto seguinte não. Somos covardes. Mas continuamos achando bonito isso de se machucar. Talvez seja hora de cicatrizar, amor. Quase tenho coragem de te pedir por favor.
Você não sabe bem por que me chamou e eu não sei dizer por que escutei. Vai ver você se sentiu sozinha e eu quis te proteger. Talvez foi insuportável para você pensar em me perder. Talvez eu estivesse atrás de mais uma razão para beber. São infinitas decisões. São infinitas possibilidades e todas elas sempre acabam em um lugar onde eu não posso te ter. Olho para o lado e tento ver os seus olhos. Já não me lembro de quase nada sobre nós dois. Já não sei te tocar como eu te tocava. Não somos mais nada. Somos espaços perdidos de algo que já foi, já passou, não volta mais.
Então deixa pra lá, tá muito chato te amar.
Tá muito chato viver pra te contar,
Que um dia a gente aprende a esquecer.
E a nossa história não é mais história para se vender.
Estamos tímidos, você me pede para sentar. Então eu junto as mãos e as enfio entre as pernas. O frio nos dilacera, mas não nos importamos. Estamos acostumados à dor. Estamos anestesiados. Não sabemos nem ao menos qual o cheiro do ralo, não sentimos os cortes do coração. Somos insensíveis, meu bem, já não nos respeitamos. Não somos mais quem éramos há alguns anos. Me quer dia sim e dia não. Te amo hora sim, minuto seguinte não. Somos covardes. Mas continuamos achando bonito isso de se machucar. Talvez seja hora de cicatrizar, amor. Quase tenho coragem de te pedir por favor.
Você não sabe bem por que me chamou e eu não sei dizer por que escutei. Vai ver você se sentiu sozinha e eu quis te proteger. Talvez foi insuportável para você pensar em me perder. Talvez eu estivesse atrás de mais uma razão para beber. São infinitas decisões. São infinitas possibilidades e todas elas sempre acabam em um lugar onde eu não posso te ter. Olho para o lado e tento ver os seus olhos. Já não me lembro de quase nada sobre nós dois. Já não sei te tocar como eu te tocava. Não somos mais nada. Somos espaços perdidos de algo que já foi, já passou, não volta mais.
Então deixa pra lá, tá muito chato te amar.
Tá muito chato viver pra te contar,
Que um dia a gente aprende a esquecer.
E a nossa história não é mais história para se vender.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Versinho particular
Então tá
Se for pra ir
Que vá
Tanto faz
Se o amor já não é
O que tinha que ser
Deixa mentir
Se for pro sol raiar
Deixa felicidade abrir
Não me abrace, amor
Se for pra partir
Não me queira só
Como quem tem dó
Do que está para vir
Então tá
Se for pra ser
Pode ficar
Tanto faz
Se o amor consegue
Cicatrizar
Deixa eu sorrir
Mesmo que seja
Só brincadeira
Então vamos ser crianças...
Se for pra ir
Que vá
Tanto faz
Se o amor já não é
O que tinha que ser
Deixa mentir
Se for pro sol raiar
Deixa felicidade abrir
Não me abrace, amor
Se for pra partir
Não me queira só
Como quem tem dó
Do que está para vir
Então tá
Se for pra ser
Pode ficar
Tanto faz
Se o amor consegue
Cicatrizar
Deixa eu sorrir
Mesmo que seja
Só brincadeira
Então vamos ser crianças...
terça-feira, 30 de abril de 2013
Reflexões sobre o fim que não era fim
Não tente ser específica comigo. Nós não somos tão singulares assim, não sabemos nos comportar bem. Nunca soubemos. Nossa única certeza era que estaríamos juntas. Em um dia, em algumas horas, em vários anos. Nunca nos imaginamos distantes. Incrível como o amor te deixa burro. Te tira a razão e te deixa estúpido como uma porta. Sempre achei que estávamos a salvo. Nada é concreto quando se trata de nós, não é, meu bem? O tempo passou mais rápido do que eu esperava. Quase não consigo mais te ver. Tudo bem, essa coisa de "o amor acabou" parece mórbida demais, silenciosa demais e eu não quero ter que lidar com isso. Não quero sentir o coração doer, amor, então vai logo. Não se demora demais em mim, não se apegue mais ainda ao meu colchão, não se esqueça de deixar as minhas roupas e lembre-se de trocar o perfume. Lembre-se de me esquecer.
SADNESS.
sábado, 26 de janeiro de 2013
O dia em que acabou
Balanço os pés pertinho dos seus. Você chegou 45 minutos atrasado e já vai embora. Veio me dizer que não sabe, não entende, não consegue. Chega cheio de promessas e saí sem esperança nenhuma. E agora, sentada aqui do seu lado, te olhando meio que não querendo olhar, não consigo saber qual era o problema. E se havia mesmo um problema. Ou se os problemas eram tantos que pareciam normais. Mas eu não queria te deixar ir. Mesmo não sabendo, não entendendo, não conseguindo. Ficar era essencial.
Mas você foi mesmo assim. Não deixou nem uma lágrima, nem uma desculpa aceitável. Sussurrou aquelas coisas clichês por uma semana, como se me preparasse. Como se a linha tivesse acabado logo depois de ter começado. Acho que no fundo, eu sabia. Estava meio que me aceitando, resolvendo as papeladas, esperando pelo momento em que você sairia por aquela porta e nunca mais voltaria. Culpa de quem? Culpe o mundo e sua instabilidade. Culpe a necessidade das pessoas de ir embora. Culpe quem tem que ficar e nunca fica.
Você foi e suas convicções ficaram presas em mim. Todos os seus planos, suas medidas, suas manias exatas. Você ficou preso e o que restou de mim, você levou. Agora eu sou você. Sou completamente você e você é completamente eu. Você me levou de mim. Tudo parece um traço de um passado que eu soquei as paredes para esquecer. Tudo é mais distante que o normal, não faz mais tanto alvoroço na minha mente.
( ...)
Dia desses sentei na cama no meio da noite e esperei ficar triste. Não consigo mais. Eu esqueci você, esqueci suas idas, esqueci suas voltas, seus sorrisos, suas meias palavras. Não consigo nem ao menos derrubar uma lágrima. Aí eu me sinto triste por não estar triste por você. Mas sei que um dia isso vai passar também. Quis chorar muito esse dia. Minha vontade era me jogar no sofá com um pote de leite condensado e chorar, chorar, chorar. Chorar por não chorar mais por você. Ora, "lágrimas não são argumentos", eu sei, eu sei.
Troquei o café de manhã por um maço de cigarros. Experimentei todas as bebidas que me ofereceram. As suas cicatrizes ficaram, mas o meu sorriso ainda é meu. Te encontrei no cinema semana passada, namorada nova, camiseta nova, barba antiga. Você me perguntou do trabalho, eu te perguntei sobre a vida. Nada estimulante, na verdade. A menina que te acompanhava te deu um beijo, te protegeu de mim. Eu olhei pra ela e quis te proteger de mim. De todo o sentimento que você explodiu em mim, aquele ano atrás. De todas as estrelas que você criou no meu olhar. Mas você agora é um cara, só um cara, que vai ao cinema com a namorada e compra dois sacos de pipoca e um refri. Eu continuo sendo quem eu era antes de você. Quarenta e cinco minutos atrasado e dois segundos de amor para me servir.
Mas você foi mesmo assim. Não deixou nem uma lágrima, nem uma desculpa aceitável. Sussurrou aquelas coisas clichês por uma semana, como se me preparasse. Como se a linha tivesse acabado logo depois de ter começado. Acho que no fundo, eu sabia. Estava meio que me aceitando, resolvendo as papeladas, esperando pelo momento em que você sairia por aquela porta e nunca mais voltaria. Culpa de quem? Culpe o mundo e sua instabilidade. Culpe a necessidade das pessoas de ir embora. Culpe quem tem que ficar e nunca fica.
Você foi e suas convicções ficaram presas em mim. Todos os seus planos, suas medidas, suas manias exatas. Você ficou preso e o que restou de mim, você levou. Agora eu sou você. Sou completamente você e você é completamente eu. Você me levou de mim. Tudo parece um traço de um passado que eu soquei as paredes para esquecer. Tudo é mais distante que o normal, não faz mais tanto alvoroço na minha mente.
( ...)
Dia desses sentei na cama no meio da noite e esperei ficar triste. Não consigo mais. Eu esqueci você, esqueci suas idas, esqueci suas voltas, seus sorrisos, suas meias palavras. Não consigo nem ao menos derrubar uma lágrima. Aí eu me sinto triste por não estar triste por você. Mas sei que um dia isso vai passar também. Quis chorar muito esse dia. Minha vontade era me jogar no sofá com um pote de leite condensado e chorar, chorar, chorar. Chorar por não chorar mais por você. Ora, "lágrimas não são argumentos", eu sei, eu sei.
Troquei o café de manhã por um maço de cigarros. Experimentei todas as bebidas que me ofereceram. As suas cicatrizes ficaram, mas o meu sorriso ainda é meu. Te encontrei no cinema semana passada, namorada nova, camiseta nova, barba antiga. Você me perguntou do trabalho, eu te perguntei sobre a vida. Nada estimulante, na verdade. A menina que te acompanhava te deu um beijo, te protegeu de mim. Eu olhei pra ela e quis te proteger de mim. De todo o sentimento que você explodiu em mim, aquele ano atrás. De todas as estrelas que você criou no meu olhar. Mas você agora é um cara, só um cara, que vai ao cinema com a namorada e compra dois sacos de pipoca e um refri. Eu continuo sendo quem eu era antes de você. Quarenta e cinco minutos atrasado e dois segundos de amor para me servir.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
a piada de nós dois
Estou deitado, escornado nessa cama, com cheiros distintos, complicados, bagunçados. Estou uns três cigarros adiantado, demasiado cansado, jogado, como cartas de baralho, embaralhado. Estou ralando a cabeça, os pés, o coração atrás de alguma desculpa nem-tão-sincera para te dizer.
Estou com alguma saudade boba de coisas bobas que eu não pude ter.
Eu sei que não podia ser mais errado, descompassado, se eu pudesse apagar do quadro os beijos que nós demos em alguma hora do passado. E se eu choro alguma hora, machuco as mãos com medo de que você vá embora e sento encostado, aborrecido com esse vocabulário que você aprendeu para me magoar. E se eu te olho enquanto você dança, fico com medo de parecer criança, te puxo de lado para não me afastar.
E brinco como quem não quer nada, "não é amor, é quase uma piada". E quase sem ver, nunca mais parei de sorrir.
E entendo que você não vem agora, mas se eu te vejo não quero ir embora, fico abobado esperando o sinal abrir. E toda a noite eu fecho os olhos, fico pesado, extasiado com a sua demora e afasto os pesadelos que me consomem por saber que você não está aqui. Lanço dados ao seu encontro, disfarço vontades, caio, me levanto dos tombos que eu tomei por tentar te seguir.
Estou com alguma saudade boba de coisas bobas que eu não pude ter.
Eu sei que não podia ser mais errado, descompassado, se eu pudesse apagar do quadro os beijos que nós demos em alguma hora do passado. E se eu choro alguma hora, machuco as mãos com medo de que você vá embora e sento encostado, aborrecido com esse vocabulário que você aprendeu para me magoar. E se eu te olho enquanto você dança, fico com medo de parecer criança, te puxo de lado para não me afastar.
E brinco como quem não quer nada, "não é amor, é quase uma piada". E quase sem ver, nunca mais parei de sorrir.
E entendo que você não vem agora, mas se eu te vejo não quero ir embora, fico abobado esperando o sinal abrir. E toda a noite eu fecho os olhos, fico pesado, extasiado com a sua demora e afasto os pesadelos que me consomem por saber que você não está aqui. Lanço dados ao seu encontro, disfarço vontades, caio, me levanto dos tombos que eu tomei por tentar te seguir.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Tudo que eu toco
Da última vez que eu te vi você ainda usava aquelas botas espancadas e brincos nas orelhas. Não deixava nem que um malandro como eu te fizesse de boba. Eu te pegava às 7 e te devolvia pro amanhecer todos os dias. Você era suave, suave. Eu te fazia sorrir mascando chicletes de menta e bebendo garrafinhas coloridas, tampando seus ouvidos dos problemas que um dia ainda iam te alcançar. Você não era uma boa menina, mas ainda era a mais boazinha que eu já tive. Não sei se aquilo era amor ou era vontade de viajar com alguém mais easy do que eu, mas era gostoso e fazia a ponta dos dedos congelarem. Mas tudo que eu toco, meu bem, estraga. Você nunca soube se ia ou se ficava. Eu te mostrava o que eu conhecia do mundo e você me oferecia beijos com gosto de cafés açucarados, feitos para menininhas igual a você. A gente se afastava todos os dias, mas eu insisti em tropeçar em você algumas outras vezes, por querer, sem querer, ninguém se importava. Vez e outra você partia sem olhar para trás e eu sabia que mesmo assim, mesmo precisando tanto de mim, você ainda conseguia ir embora. Talvez o seu sorriso não fosse mais tão brilhante e o ar não fosse tão mais puro. Tudo isso era recorrente da força que você fazia para não tombar toda vez que eu ia. Ou que eu voltava.
Aquele dia aconteceu da gente não se encontrar mais. Nem se esbarrar nessas esquinas perdidas do centro da cidade, nem no seu cinema favorito, na minha tabacaria. A gente chegou a dar tchau, sim. Tchau, até uma outra vez, no ano novo, quem sabe? Ninguém sabia. De vez em quando eu ainda te procuro pelo retrovisor. Procuro algum traço seu em rostos de meninas bonitinhas, com sorrisos rebeldes. Até gravo umas músicas chatinhas para você escutar num headphone e essas coisas maneiras que existem por aí. Guardo tudo na memória pra se um dia, menina, eu te encontrar. Eu era o cara da jaqueta de couro com botas enlameadas que sujava a soleira da porta da sua casa. Eu sabia que por baixo daquela barba mal feita de sábados a tarde havia uma cara amassada de quem bebeu demais ou chorou demais. Você sempre entendeu que apesar das minhas manias e manias havia alguém ali, debaixo de toda aquela carapuça, usando óculos escuros havia, sim, talvez, quem sabe? um coração. Mas durava pouco. Eu sumia uns dois ou três dias, mas sempre chegava na hora certa. Achei que o importante era saber que eu sempre voltava. Pedia perdão e mentia pra ficar só mais um pouquinho com você. Eu nunca soube porque você sempre me quis de volta. Nunca perguntei também. Achei melhor deixar assim, sem perguntar coisas difíceis de responder. Ou duras de ouvir.
Olha, preciso te falar umas coisas. Love kills. Mas é óbvio que você sabe disso. Você não era uma dessas garotas que usam blusas de seda com cordões e esperam que eu as leve para casa. Você tinha, de fato, blusas de seda, que amarrava na cintura e, vez ou outra, deixava as cinzas quentes de cigarro baterem um furo ou dois. Não sei porque te deixei ir. Quando deito a cabeça no travesseiro e penso nisso é que eu não durmo. Talvez eu tenha apagado depois de alguns tapas e quando acordei você já havia ido. Talvez eu tivesse tanta certeza da sua volta que não me importei em calçar os sapatos. Mas eu queria que você tivesse ficado. Que me obrigasse a prometer ser um bom garoto, me fizesse dispensar os coturnos e a mania de seguir aqueles punks remanescentes, gritasse até eu largar os cigarros e passasse a lavar mais as mãos. De que adianta, agora, fechar os olhos e desejar? Eu te perdi em uma dessas esquinas perdidas do centro da cidade, no seu cinema favorito, na minha tabacaria. A gente chegou a dar tchau, sim. Tchau.
Aquele dia aconteceu da gente não se encontrar mais. Nem se esbarrar nessas esquinas perdidas do centro da cidade, nem no seu cinema favorito, na minha tabacaria. A gente chegou a dar tchau, sim. Tchau, até uma outra vez, no ano novo, quem sabe? Ninguém sabia. De vez em quando eu ainda te procuro pelo retrovisor. Procuro algum traço seu em rostos de meninas bonitinhas, com sorrisos rebeldes. Até gravo umas músicas chatinhas para você escutar num headphone e essas coisas maneiras que existem por aí. Guardo tudo na memória pra se um dia, menina, eu te encontrar. Eu era o cara da jaqueta de couro com botas enlameadas que sujava a soleira da porta da sua casa. Eu sabia que por baixo daquela barba mal feita de sábados a tarde havia uma cara amassada de quem bebeu demais ou chorou demais. Você sempre entendeu que apesar das minhas manias e manias havia alguém ali, debaixo de toda aquela carapuça, usando óculos escuros havia, sim, talvez, quem sabe? um coração. Mas durava pouco. Eu sumia uns dois ou três dias, mas sempre chegava na hora certa. Achei que o importante era saber que eu sempre voltava. Pedia perdão e mentia pra ficar só mais um pouquinho com você. Eu nunca soube porque você sempre me quis de volta. Nunca perguntei também. Achei melhor deixar assim, sem perguntar coisas difíceis de responder. Ou duras de ouvir.
Olha, preciso te falar umas coisas. Love kills. Mas é óbvio que você sabe disso. Você não era uma dessas garotas que usam blusas de seda com cordões e esperam que eu as leve para casa. Você tinha, de fato, blusas de seda, que amarrava na cintura e, vez ou outra, deixava as cinzas quentes de cigarro baterem um furo ou dois. Não sei porque te deixei ir. Quando deito a cabeça no travesseiro e penso nisso é que eu não durmo. Talvez eu tenha apagado depois de alguns tapas e quando acordei você já havia ido. Talvez eu tivesse tanta certeza da sua volta que não me importei em calçar os sapatos. Mas eu queria que você tivesse ficado. Que me obrigasse a prometer ser um bom garoto, me fizesse dispensar os coturnos e a mania de seguir aqueles punks remanescentes, gritasse até eu largar os cigarros e passasse a lavar mais as mãos. De que adianta, agora, fechar os olhos e desejar? Eu te perdi em uma dessas esquinas perdidas do centro da cidade, no seu cinema favorito, na minha tabacaria. A gente chegou a dar tchau, sim. Tchau.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
O nosso desencontro
Entenda. Estou deitado no sofá esquadrinhando o sol matinal que entra pela janela da sala, com uma guimba de cigarro pendendo entres os dedos, enquanto você prepara alguma coisa na cozinha. Antes que eu possa sentir o cheiro de café quente e panquecas, você me surpreende com pernas e calcinha e minha blusa verde favorita. "Desgraçada", é o que eu penso, enquanto você se aproxima sorrindo. Tento desviar o olhar, fazer um ar descontraído, fingir que nada disso importa para mim. Tento me convencer que não me lembro que ontem tudo acabou em cervejas jogadas pela casa e uma cama barulhenta às três da manhã. Tudo bem. Estou sendo crítico demais comigo mesmo. Já faz quatro meses que você largou as chaves em cima do balcão e disse que me amava, que me queria, só não podia ficar mais, só não suportava mais. Não agora, não amanhã. Talvez daqui alguns anos.
Você foi embora e eu não quero ser o que te impede de partir outros corações. Ou quero. Mas o meu tá quebrado demais para que eu possa consertar. Eu morro lentamente, enquanto você passa com essas pernas perfeitas e olhares ansiosos, me pedindo para deixar para lá, deixar acontecer, me permitir sofrer. Me permitir sofrer por você. Não. Não posso desandar agora, esquecer dos joelhos ralados, das promessas que fiz enquanto me embebedava em um bar qualquer, com pessoas quaisquer, com luzes baixas, com consciências pesadas. Não importa. O que eu não sei é como chegamos até aqui. Você tinha tantas outras coisas para fazer. Arrumar as malas, ver aquele filme francês no cinema do centro, terminar o curso de Alemão. E ainda precisava ir para a cama comigo. Eu só tinha alguns dias ensolarados e uns cigarros importados. Tento te imaginar agora: deve estar em casa, pendurada no telefone a melhor amiga que arranjou ontem naquele bar de Ipanema, com muitas cervejas e alguns trocados em cima da mesa. Deve estar achando um saco a possibilidade de eu me re-apaixonar por você. Re-apaixonar é um saco, eu te entendo. É como comer chocolate meio amargo: é gostoso, mas sempre sobra meia barra.
Você era um sussurro, um plano mal feito, umas brincadeiras de sexta-feira. Você era meu descanso no tédio do trabalho às quatro da tarde, quando até as melhores piadas perdem a graça. "Você virou a piada sem graça", eu penso. Você deixou de ser a menina bonitinha das pernas bonitas e virou um nada. Um grande e feio nada. Eu espero que o tempo passe e te leve daqui. Leve consigo todo o seu perfume, a sua presença, até o seu cabelo bagunçado nos domingos de manhãs frias. Eu não quero que deixe nada. Nem um centímetro da sua perfeição escandalosa que fazia os caras dos apartamentos vizinhos saírem de casa mais cedo só pra te ver indo embora de mim. Decidi que nas sextas solitárias e nos bares cansados, eu não me embebedaria mais de você. Eu me embebedaria do que sobrou - caixas de chocolates e sorrisos bonitinhos - até que tudo acabasse. Até que todas as suas lembranças morressem. Pode dar certo, eu disse baixinho para mim mim. Pode dar, vai dar.
Eu te olho nos olhos, te peço para sentar comigo no sofá da sala. Foram cinco ou seis baques, uns cigarros picados e algumas mãos bobas em pernas distraídas por baixo da mesa. Não foi nada demais, você sabe. Eu poderia te entregar as chaves novas, te oferecer um café, um suco, sei lá, te oferecer para ficar, mas eu não quero. Você pergunta se eu deixei de te amar. Fico estático, feito idiota. Nunca parei para pensar nisso. Não sei se é amor o que eu sinto agora ou se é alívio por conseguir te sentir de perto sem querer te beijar. Aí eu lembro das vezes que nós saímos pela cidade cantando aquelas músicas que você odeia. E lembro do seu cheiro doce misturado ao meu cigarro. E dos beijos de manhãs. Não é nada disso.
Eu te amo, sim. Esse foi o nosso desencontro.
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